segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Para Priscilla, obrigado por tudo


Meus caros

Sei que ainda não estou postando críticas com a velocidade que eu esperava. Mas elas vão começar a proliferar em breve. Enquanto isto, posto aqui uma das primeiras críticas cinematográficas que escrevi e que foi publicada num jornal-laboratório da minha época de graduação.
Espero que gostem e me deem um desconto pelo tom imaturo e mais jornalístico que antropológico.




PARA PRISCILLA, OBRIGADO POR TUDO

Artigo publicado no jornal Zero, novembro de 1996




A “ferveção” drag-queen que vem ganhando espaço na sociedade, conquistou seu lugar também no cinema. O agito, o exagero no vestuário, o bom humor inabalável desses rapazes que pouco têm em comum com travestis e transformistas, veio à tona com Priscilla, a Rainha do deserto (Austrália, 1994) e Para Wong Foo, Obrigado por tudo, Julie Newmar (EUA, 1995). Apesar de tratarem do mesmo tema, os dois filmes apresentam diferenças fundamentais que nos dão conta do cinema preconceituoso dos grandes estúdios.

Priscilla... conta a história de três drags que atravessam a Austrália para a realização de um show. No caminho, o ônibus dirigido por elas (que se chama Priscilla) quebra, elas encontram os exóticos aborígenes, dão de frente com a imensidão de desertos australianos, passam por pequenas cidades onde vivenciam as mais cômicas situações, e compartilham entre si as angústias e os deslumbres de quem atravessou as fronteiras dos gêneros masculino e feminino.

Para Wong Foo..., por sua vez, é também um road movie que também conta a história de três drag-queens, que também atravessam o país (só que desta vez os Estados Unidos). A caminho de Hollywood, onde participarão do concurso “drag-queen da América”, o carro conversível delas também quebra e as obriga a também parar numa pequena cidade, onde se deparam com o preconceito e a monotonia de um vilarejo. Coincidência?

As diferenças fundamentais entre os dois filmes se centram na abordagem de um mesmo tema. Priscilla... trabalha bem com a questão do exótico, do exagerado, características essenciais das drag-queens. Ao contrário, Para Wong Foo... deixa-se cair no senso comum apresentando as drags como homens que se sentem bem num requintado vestido longo.

O estereótipo do feminino é característica fundamental do filme americano, aproximando os personagens Vida Bohemme (Patrick Swayze), Noxeema Jackson (Wesley Snipes) e Chichi Rodriguez (John Leguizamo) de travestis. Buscam ser mulheres perfeitas, com uma certa sensibilidade estereotipada que se distancia dos gestos e atos exagerados das drag-queens. Um exemplo disso é a inserção das três no vilarejo, quando imaginam que todos na cidade acreditam que são apenas mulheres altas e fortes.

As três drags de Priscilla, no entanto, desembarcam na pequena cidade australiana, esbanjando graça em perucas coloridas e um vestido feito com chinelos de borracha. Em nenhum momento tem a pretensão de enganar que são mulheres. Muito pelo contrário, Mitzie (Hugo Weaving), Bernardette (Terence Stamp) e Felicia (Guy Pearce) fazem questão de mostrar às pessoas o resultado da mistura do masculino com o feminino e ainda uma boa dose do que pode haver de mais exótico no vestuário e nos gestos humanos.

O que se pretende aqui não é fazer apologia ao movimento drag-queen e desmerecer travestis e transexuais. Mas é que Para Wong Foo..., ao contrário de Priscilla..., pouco ajuda na desconstrução de um mito - de que homens gays que se vestem de mulher são todos travestis. O filme americano se apropria de uma nomenclatura (drag-queen) para apresentar ao mundo, como se fosse novidade, um segmento há muito conhecido. Os travestis devem também, é claro, ter seu espaço na mídia. O que é importante frisar neles são os nomes desses segmentos. Os produtores de Para Wong Foo... devem não ter tido coragem de apostar num grupo já tão marginalizado. O filme teria tida menos sucesso se você apresentado ao mundo como a história de três travestis?


No geral, podemos pensar no que os dois filmes nos trazem à tona. Para Wong Foo... apesar de ser divertido, não passa dos velhos padrões da comédia hollywoodiana, da mais simples. O grande dilema discutido é a falta de caráter da drag-queen que ousa deixar que um homem se apaixone por ela. E há também espaço para a celebração do amor heterossexual, quando todos os casais do filme se reencontram num clima bem forçado de contos-de-fada. O amor homossexual, ou seja, das drags, fica de lado como se a elas estivesse reservado apenas o mundo cor-de-rosa das passarelas e dos saltos altos. Parecem estar pagando um preço.

Priscilla... apresenta inúmeras questões. De forma até didática expõe o tom exótico das drags em contato com animais do deserto e com aborígenes: a linguagem do exoticismo. O exagero dos gestos e vestuários dos personagens são postos em diálogo com imensos desertos e espaços infinitos: a linguagem do exagero. A sequência dessas imagens podem trazer à luz a imensidão de gêneros e sexualidades da espécie humana, que não se enquadram apenas em masculino e feminino. E as drag-queens são só uma amostra, talvez a mais divertida dessa imensidão. À elas também é reservado, no filme, espaço às paixões, às imitações do Abba e até o direito de - por que não - cantar ópera no deserto com uma gigantesca echarpe cor-de-prata ao vento.

Comparar Priscilla... e Para Wong Foo... pode ser muito mais que dissertar sobre esses rapazes que alegremente brincam em cima de convenções da sexualidade humana. Percebemos muito mais que diretores falando sobre assuntos que não dominam - o que não é o caso de Stephen Elliot de Priscilla... Nos deparamos, sim, com formas de abordagem que já vêm recheadas de idéias do senso comum, que pouco fazem para desmistificar estas mesmas idéias - o que Beeban Kidron, diretora de Para Wong Foo..., infelizmente não fez.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Não conte a ninguém!





“Neste país você pode ser viciado, traficante ou ladrão, mas não bicha!”
(Diálogo de Não conte a ninguém)



Tudo começa dentro de um acampamento de crianças e adolescentes, no interior do Peru, numa noite de lua cheia e cantoria em volta da fogueira. Joaquin, um menino de 7 anos, durante aquela noite pronunciaria a frase que daria tom à sua vida. Na hora de dormir, ele tenta se aproximar eroticamente de um amigo que de pronto lhe responde com um “que es esto maricón?”, forçando o recuo de Joaquin com um aterrorizante pedido: “No se lo digas a nádie”. Não conte a ninguém (Peru, 1998), filme de Francisco Lombardi, baseado na obra do escritor peruano Jaime Bayly, vai mostrar na seqüência a vida de um Joaquin triste e sem lugar numa sociedade onde a violência contra minorias étnicas e sexuais parece não chocar, em que espancar um travesti ou atropelar um índio na beira da estrada compõem formas de lazer de integrantes da burguesia branca.
“Não conte a ninguém!” é uma frase que acompanha a vida do rapaz que só vai esboçar qualquer tipo de felicidade quando se muda para Lima para fazer faculdade e conhecer o sexo e o uso de entorpecentes. De um pedido infantil de desculpas, a frase vai se transformando num terrível ardil que relega às relações de mesmo sexo à categoria de possíveis, porém inconfessáveis. Toleráveis desde que não coloquem em risco uma identidade masculina baseada em ideais de família, em que um casamento heterossexual não propriamente tem a ver com desejo sexual. A sucessão dos fatos leva Joaquin a não contar nada a ninguém e aceitar o casamento com Alessandra – uma amiga de faculdade disposta a fazê-lo superar seu “problema”, seu “trauma” - sem, no entanto, deixar de manter encontros sexuais com Gonzalo.
O filme não é sobre paixões arrebatadoras, não há romantismo no filme, mas uma necessidade de ajuste de Joaquin à sua sociedade. Digo isso, por não se tratar de uma luta por liberdade ou quebra de tabus. Os desejos sexuais de Joaquin não representam uma realidade impossível para seu país. O que ele vai descobrir é a devida localização daquele desejo, suas condições de possibilidade, restrito à fugacidade, à clandestinidade, às sombras. É impossível não lembrar de cenas e falas tão comuns em muitos contextos da realidade brasileira (que não pode se pensar padronizada neste quesito), onde homens e mulheres que se relacionam afetiva e sexualmente com pessoas do mesmo sexo raramente não se deparam com situações em que são incentivados a não contar nada a ninguém.
Longe de querer estabelecer grandes estruturas de gênero e sexualidade na América Latina, este trabalho parte deste filme como exercício reflexivo para encontrar não comportamentos padronizados, mas idéias que se atualizam em espaços fortemente marcados por distinções gradativas entre homens e mulheres, brancos e não-brancos. Enfocando mais as questões de gênero e sexualidade, pretendo mostrar que mesmo com o que se tem chamado de “boom gay” brasileiro dos anos 90 – em que a homossexualidade se marca pela conquista e consolidação de espaços como as paradas gays, os carnavais GLS, casas noturnas exclusivas e não mais camufladas, além de discussões menos marcadas pelo tom predominantemente conservador – ainda que tenha havido um recrudescimento de grupos político-religiosos em sua cruzada contra a livre expressão sexual –, as práticas homoeróticas ainda se encontram circunscritas a um deslocamento quase inevitável numa cultura de gênero que vai ligar desejo sexual com identidade e estabelecer hierarquias entre masculinidade e feminilidade, em termos de atividade e passividade, capacidade de agir e negação de agência.


- Eres gay?
- No, capricornio.
É impossível concluir dentro de um assunto tão complexo, por isso quero encerrar este trabalho lançando possibilidade de estudos futuros. É preciso considerar antes de mais nada o quanto é precária a possibilidade de reduzir a questão da homossexualidade em “assumir-se” ou “não contar”, uma vez que tais práticas não são apenas da ordem de uma política identitária, mas atravessadas por questões de fundo como desejo e eroticidade. Num momento decisivo da história de Joaquin, em Não conte a ninguém, ele resolve trazer à tona o caso que vinha tendo de forma sigilosa com Gonzalo, pois para Joaquin era uma verdade que deveria ser contada às suas respectivas namoradas. A decepção dele é descobrir que Gonzalo não cogitava nem por alto a possibilidade de romper seu noivado e se “assumir” ao seu lado. E quando se envolve sexualmente com um amigo de faculdade – o mesmo que numa cena anterior espanca um travesti –, ele passa a ter certeza de que seu desejo sexual terá lugar garantido desde que não seja contado a ninguém, desde que não seja visualmente ou discursivamente identificado.
A homossexualidade, dessa forma, torna-se da ordem de um segredo que deve ou não ser revelado. Se a sexualidade é tão definidora dos sujeitos, revelá-la ou escondê-la faz parte dos jogos das relações nas quais o sujeito vai interagir. Muitas vezes esse contar ou assumir não necessariamente deve ser público, podendo ser um exercício individual de auto-descoberta, mas ainda assim implica uma verdade a ser assumida para que o sujeito se constitua. Mas essa verdade definidora com a dupla possibilidade de ser assumida ou não parece dar a tônica do que é “ser homossexual” no Brasil e na América Latina. É possível sugerir então que o “não contar” ou o “não assumir” oferece tanto a possibilidade de uma chamada “vida dupla” quanto significa não ser encapsulado num discurso que se constitui no reforço da heterossexualidade.




FICHA TÉCNICA DO FILME
País: PER-ESP
Ano: 1998
Duração: 120’
Direção: Francisco J. Lombardi
Sinopse:
Joaquim poderia ser um rapaz sem problemas. Sua família goza de uma situação privilegiada, os estudos nunca lhe provocaram dores de cabeça e seus amigos o consideram um amigo de fato. Mas às vezes ter isso tudo não é suficiente. “Não conte a ninguém” relata com audácia os dissabores que acompanham a busca da identidade sexual, para um jovem pressionado pela lenta evolução moral de seu país. Uma história universal sobre a intolerância baseada na novela do polêmico escritor peruano Jaime Bayly.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Existe um cinema gay?

Amigos. Antes de dar início às minhas postagens, quando cada uma vai corresponder a um filme assistido durante esta pesquisa, gostaria de estreiar este blog expondo algumas reflexões sobre cinema, imagem, cultura gay, gênero e sexualidade que tenho elaborado nos últimos meses, desde que comecei meu doutorado.

A primeira delas é pensar se realmente existe um cinema gay e o que seria? Harvey Fierstein certa vez disse que uma peça de teatro gay deve ser uma peça que se apaixona por outra. A brincadeira sugere uma necessidade de refletirmos sobre rótulos e gêneros cinematográficos que, antes de representarem tipos de filme, parecem segregar as produções e negar outras possibilidades de conteúdos que estas películas nos oferecem.

Pensar na existência ou não de um cinema gay é também a forma que encontro para delimitar os filmes que vão fazer parte da minha pesquisa. Tenho cerca de 150 títulos de filmes que tenho selecionado por conterem menções à homossexualidade ou histórias em que as relações de mesmo sexo parecem ganhar relevância no enredo. Na maioria deles, a questão da sexualidade parece estar em primeiro plano, como uma descoberta pessoal, um relacionamento afetivo, um problema familiar, apontando quase sempre que viver fora dos limites da heterossexualidade obrigatória é quase sempre um desafio doloroso e penoso.

Raros são os filmes em que as relações afetivas e sexuais entre dois homens ou duas mulheres são colocadas de forma que não sejam a problemática central do filme, permitindo que os protagonistas atuem em cima de outros assuntos. O melhor exemplo do tipo de produção a que estou me referindo é, na verdade, um seriado americano chamado Dante's Cove. A história gira em torno de um velho hotel em que seus moradores (todos gays e lésbicas) se defrontam com as aparições de fantasmas que assombram a casa. Ou seja, no universo do filme "it's ok to be gay", não é o que faz girar a trama.

Mas não é o caso de outros títulos que parecem enfatizar demais as relações de mesmo sexo como problema. Mesmo filmes bem positivos que mostram os territórios gays, as vivências, os grupos de amigos, famílias que aceitam e cenas românticas e eróticas, parecem sempre encontrar fôlego em obstáculos e problemas construídos em torno da questão gay. Sempre há um possível namorado que não quer "assumir", ou um pai conservador relutante, ou um amigo da escola que prefere fazer piadas. Em muitos filmes, a descoberta da (homo) sexualidade parece sempre vir acompanhada de perdas, de isolamento. Por mais que um novo mundo seja apresentado àquele que se "assume", ele/a precisa deixar pra trás tudo aquilo que não condiz com a nova vida.

Mas talvez não seja à toa a construção das experiências homossexuais quase como um "desejo proibido". Se, como já diziam nossas avós, "tudo o que é proibido é mais gostoso", não causa surpresa que seja justamente através de histórias proibidas ou impossíveis de desejo e amor entre duas pessoas do "mesmo sexo" que estes filmes constroem-se como atraentes, excitáveis, desejáveis. Por mais que vivenciamos momentos de abertura e novas possibilidades eróticas e sentimentais e construamos espaços em que "it's ok to be gay", sempre nos causará mais interesse naquele beijo que pode ou não pode acontecer, naquele personagem heterossexual que de repente desejará alguém de seu sexo e uma série de percalços que parecem potencializar ainda mais o nosso tesão como espectador.

Bom, são só algumas reflexões. Nos próximos posts, apresentarei os filmes que estou assistindo.

Sempre que puder, vou colocar cenas/trechos de filmes que ilustrem minhas críticas. Hoje, para estreiar, vou deixar um que talvez não ilustre a resenha mas eu achei bonitinho e resolvi colocar. Encontrei ele no blog do João Loureiro (http://filmesglbts.blogspot.com/) que eu sugiro que vocês visitem, pois é ótimo. O João tem postado sobre ótimos filmes GLBTs e ele nos oferece sempre os links para baixarmos filmes e legendas.

Beijos e até.




A DESCOBERTA DE LUKE (curta de animação)