terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Não conte a ninguém!





“Neste país você pode ser viciado, traficante ou ladrão, mas não bicha!”
(Diálogo de Não conte a ninguém)



Tudo começa dentro de um acampamento de crianças e adolescentes, no interior do Peru, numa noite de lua cheia e cantoria em volta da fogueira. Joaquin, um menino de 7 anos, durante aquela noite pronunciaria a frase que daria tom à sua vida. Na hora de dormir, ele tenta se aproximar eroticamente de um amigo que de pronto lhe responde com um “que es esto maricón?”, forçando o recuo de Joaquin com um aterrorizante pedido: “No se lo digas a nádie”. Não conte a ninguém (Peru, 1998), filme de Francisco Lombardi, baseado na obra do escritor peruano Jaime Bayly, vai mostrar na seqüência a vida de um Joaquin triste e sem lugar numa sociedade onde a violência contra minorias étnicas e sexuais parece não chocar, em que espancar um travesti ou atropelar um índio na beira da estrada compõem formas de lazer de integrantes da burguesia branca.
“Não conte a ninguém!” é uma frase que acompanha a vida do rapaz que só vai esboçar qualquer tipo de felicidade quando se muda para Lima para fazer faculdade e conhecer o sexo e o uso de entorpecentes. De um pedido infantil de desculpas, a frase vai se transformando num terrível ardil que relega às relações de mesmo sexo à categoria de possíveis, porém inconfessáveis. Toleráveis desde que não coloquem em risco uma identidade masculina baseada em ideais de família, em que um casamento heterossexual não propriamente tem a ver com desejo sexual. A sucessão dos fatos leva Joaquin a não contar nada a ninguém e aceitar o casamento com Alessandra – uma amiga de faculdade disposta a fazê-lo superar seu “problema”, seu “trauma” - sem, no entanto, deixar de manter encontros sexuais com Gonzalo.
O filme não é sobre paixões arrebatadoras, não há romantismo no filme, mas uma necessidade de ajuste de Joaquin à sua sociedade. Digo isso, por não se tratar de uma luta por liberdade ou quebra de tabus. Os desejos sexuais de Joaquin não representam uma realidade impossível para seu país. O que ele vai descobrir é a devida localização daquele desejo, suas condições de possibilidade, restrito à fugacidade, à clandestinidade, às sombras. É impossível não lembrar de cenas e falas tão comuns em muitos contextos da realidade brasileira (que não pode se pensar padronizada neste quesito), onde homens e mulheres que se relacionam afetiva e sexualmente com pessoas do mesmo sexo raramente não se deparam com situações em que são incentivados a não contar nada a ninguém.
Longe de querer estabelecer grandes estruturas de gênero e sexualidade na América Latina, este trabalho parte deste filme como exercício reflexivo para encontrar não comportamentos padronizados, mas idéias que se atualizam em espaços fortemente marcados por distinções gradativas entre homens e mulheres, brancos e não-brancos. Enfocando mais as questões de gênero e sexualidade, pretendo mostrar que mesmo com o que se tem chamado de “boom gay” brasileiro dos anos 90 – em que a homossexualidade se marca pela conquista e consolidação de espaços como as paradas gays, os carnavais GLS, casas noturnas exclusivas e não mais camufladas, além de discussões menos marcadas pelo tom predominantemente conservador – ainda que tenha havido um recrudescimento de grupos político-religiosos em sua cruzada contra a livre expressão sexual –, as práticas homoeróticas ainda se encontram circunscritas a um deslocamento quase inevitável numa cultura de gênero que vai ligar desejo sexual com identidade e estabelecer hierarquias entre masculinidade e feminilidade, em termos de atividade e passividade, capacidade de agir e negação de agência.


- Eres gay?
- No, capricornio.
É impossível concluir dentro de um assunto tão complexo, por isso quero encerrar este trabalho lançando possibilidade de estudos futuros. É preciso considerar antes de mais nada o quanto é precária a possibilidade de reduzir a questão da homossexualidade em “assumir-se” ou “não contar”, uma vez que tais práticas não são apenas da ordem de uma política identitária, mas atravessadas por questões de fundo como desejo e eroticidade. Num momento decisivo da história de Joaquin, em Não conte a ninguém, ele resolve trazer à tona o caso que vinha tendo de forma sigilosa com Gonzalo, pois para Joaquin era uma verdade que deveria ser contada às suas respectivas namoradas. A decepção dele é descobrir que Gonzalo não cogitava nem por alto a possibilidade de romper seu noivado e se “assumir” ao seu lado. E quando se envolve sexualmente com um amigo de faculdade – o mesmo que numa cena anterior espanca um travesti –, ele passa a ter certeza de que seu desejo sexual terá lugar garantido desde que não seja contado a ninguém, desde que não seja visualmente ou discursivamente identificado.
A homossexualidade, dessa forma, torna-se da ordem de um segredo que deve ou não ser revelado. Se a sexualidade é tão definidora dos sujeitos, revelá-la ou escondê-la faz parte dos jogos das relações nas quais o sujeito vai interagir. Muitas vezes esse contar ou assumir não necessariamente deve ser público, podendo ser um exercício individual de auto-descoberta, mas ainda assim implica uma verdade a ser assumida para que o sujeito se constitua. Mas essa verdade definidora com a dupla possibilidade de ser assumida ou não parece dar a tônica do que é “ser homossexual” no Brasil e na América Latina. É possível sugerir então que o “não contar” ou o “não assumir” oferece tanto a possibilidade de uma chamada “vida dupla” quanto significa não ser encapsulado num discurso que se constitui no reforço da heterossexualidade.




FICHA TÉCNICA DO FILME
País: PER-ESP
Ano: 1998
Duração: 120’
Direção: Francisco J. Lombardi
Sinopse:
Joaquim poderia ser um rapaz sem problemas. Sua família goza de uma situação privilegiada, os estudos nunca lhe provocaram dores de cabeça e seus amigos o consideram um amigo de fato. Mas às vezes ter isso tudo não é suficiente. “Não conte a ninguém” relata com audácia os dissabores que acompanham a busca da identidade sexual, para um jovem pressionado pela lenta evolução moral de seu país. Uma história universal sobre a intolerância baseada na novela do polêmico escritor peruano Jaime Bayly.

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